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quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pesquisa: Impactos Potenciais da Tecnologia Terminator

A Campanha Terminar Terminator publicou uma pesquisa sobre os Impactos Potenciais da Tecnologia Terminator no Brasil. Abaixo o texto:

"Pesquisa: Impactos Potenciais da Technologia Terminator
Angela Cordeiro, Julian Perez, Maria José Guazzelli
Florianópolis, dezembro de 2007

Pesquisa contratada ao Centro Ecológico pelo Grupo ETC

Nas últimas duas décadas, a base tecnológica utilizada na agricultura passou por grandes transformações, colocando sérios desafios para a conservação dos recursos genéticos e para o futuro da segurança alimentar. Entre as inovações, destaca-se a tecnologia de restrição de uso genético (GURT), a qual produz sementes estéreis e/ou inibe funções vitais das plantas, eliminando o direito ancestral dos agricultores multiplicarem suas sementes.

Considerando as sérias implicações que este tipo de tecnologia traz para a produção de alimentos e para a conservação da biodiversidade, o tema vem sendo debatido em diferentes fóruns internacionais. Em 2003, o Grupo Técnico de Especialistas contratado pelas Nações Unidas avaliou os impactos potenciais das GURTs sobre agricultores familiares, camponeses e comunidades tradicionais e concluiu que os impactos negativos superam os impactos positivos, caracterizando-se como uma forte ameaça à soberania e à segurança alimentar destas comunidades. A 8a Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada em Curitiba, em março de 2006, reiterou decisões anteriores, mantendo restrições à tecnologia Terminator.

Este documento apresenta o resultado de uma consulta a agricultores brasileiros sobre os impactos da tecnologia Terminator na sua atividade. A primeira parte traz uma contextualização do mercado brasileiro de sementes, incluindo informações sobre o perfil da agricultura brasileira, a evolução do setor sementeiro, os principais atores no mercado e uma estimativa de custo caso os brasileiros fossem obrigados a adquirir 100% da semente necessária para atender à demanda de plantio de milho e de soja.

A segunda parte apresenta sete entrevistas com pequenos e médios agricultores de diferentes localidades das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Estes produtores cultivam soja e/ou milho, em áreas que variam de 2 a 200 hectares. As entrevistas descrevem o sistema de produção, a origem das sementes utilizadas e a opinião dos agricultores sobre os potenciais impactos da tecnologia Terminator. A terceira parte traz considerações finais quanto aos possíveis impactos da concentração do setor de sementes e, especialmente, da tecnologia Terminator sobre a autonomia e renda dos agricultores, a agrobiodiversidade e a soberania alimentar, em um processo que afeta a sociedade como um todo.

Espera-se que os testemunhos aqui registrados, junto com outros que estão sendo levantados por colaboradores do Grupo ETC em outras países do mundo, sejam fonte de inspiração para a 9a. Conferência das Partes da CDB que será realizada em Berlim, em 2009. Certamente, o tema das sementes Terminator voltará à agenda. Que se ouça a voz dos agricultores."

A pesquisa pode ser baixada integralmente aqui.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Consea sugere vetos a Terminator


O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional encaminhou ao presidente Lula exposição de motivos na qual se posiciona contrário às tecnologias genéticas de restrição de uso, conhecidas como Terminator. O termo se refere a modificações genéticas feitas nas plantas para produzir sementes estéreis. A Lei de Biossegurança proíbe esse uso no país, mas dois projetos pedem a liberação no Congresso.

Fonte: Correio do Povo-RS, 20/03/2008.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Comissão de meio ambiente rejeita tecnologia terminator

Setembro 13, 2007

http://pt.banterminator.org/


Tecnologia que esteriliza sementes é ameaça à agricultura familiar e aos costumes tradicionais

Foi derrotado nesta quarta-feira, por 15 votos a 4, na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados o PL 268/2007, de autoria do deputado federal Eduardo Sciarra (DEM-PR), que trata da alteração da Lei de Biossegurança no que se refere à liberação dos transgênicos que utilizam Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso (GURTs), popularmente conhecidas como sementes Terminator (sementes estéreis).
O projeto visava liberar a pesquisa, o patenteamento das sementes estéreis. Essa proposta, defendida pelas grandes empresas de biotecnologia, é veementemente rechaçada pelos movimentos sociais camponeses e por redes de agroecologia. De acordo com um dos articuladores da campanha Terminar Terminator, Julian Perez, "uma possível flexibilização desta lei de biossegurança neste tema representa o aumento da vulnerabilidade dos sistemas agrícolas, havendo uma tendência de uniformidade genética dos cultivos, o aprofundamento da dependência de agricultores e do país ao controle de empresas estrangeiras sobre as sementes".
A tecnologia Terminator é uma modificação genética que dão uma espécie de prazo de validade para as sementes. De forma prática, as sementes, que seriam vendidas e protegidas por registro, esterilizariam-se após um determinado tempo. Essa tecnologia impede, por exemplo, que os agricultores permaneçam com a prática de se guardar sementes em suas propriedades para usos posteriores.
"As reais possibilidades de contaminação de cultivos orgânicos e convencionais por sementes com GURTs acarretariam perdas econômicas e de diferenças de preço. A liberação das GURTs, sob qualquer circunstância e condição, representa grave ameaça a segurança alimentar e de comunidades de agricultores e da nação", explica Perez
Os terminator não estão permitidos em nenhum lugar do mundo, tão pouco foram testados de maneira prática. A Convenção da Diversidade Biológica da ONU (CDB), acordo que tem o Brasil como atual presidente, recomenda, inclusive, que os países parte "não aprovem produtos que incorporem tais tecnologias para testes, bem como uso comercial".
O PL 268/07, agora, tramitará na Comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento da Câmara. A probabilidade de ele ser aprovado nesta comissão, maior reduto da bancada ruralista defensora dos transgênicos, é iminente.

Tentativa da indústria de Acabar com o Banimento Nacional do Terminator no Brasil

Setembro 7, 2007

http://pt.banterminator.org/

No passado, várias corporações multinacionais de sementes se comprometeram a não comercializar sementes Terminator – mas, sem surpresa, há uma intensa pressão da indústria para revogar a lei nacional brasileira que proíbe sementes suicidas. O projeto de lei número 268 (2007) no Congresso Brasileiro propõe:

- permitir a pesquisa, o registro e o patenteamento de tecnologia de semente estéril;
- permitir a comercialização de plantas Terminator que sejam geneticamente engenheiradas para produzirem fármacos e químicos idustriais;
- dar uma nova definição à tecnologia de restrição de uso genético;
- dar uma nova definição às plantas GM engenheiradas para produzirem fármacos e químicos industriais

O projeto de lei a favor da tecnologia da semente estéril é patrocinado pela indústria de biotecnologia e os aliados do agronegócio – e estava previsto para ser votado na Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, hoje. Ficamos sabendo há pouco, através de amigos em Brasília, que o relator não compareceu à reunião da Comissão – assim a votação não ocorreu. Entretanto, o assunto pode retornar a qualquer momento nas próximas semanas. O grupo de indústrias que está tentanto acabar com a proibição brasileira sobre o Terminator é o mesmo grupo que tentou, sem sucesso, repelir a lei brasileira em março de 2006 – durante a 8² Conferência das Partes da Convenção de Biodiversidade. Na reunião das Nações Unidas, mais de 180 governos, por unanimidade, mantiveram e reforçaram a moratória sobre a tecnologia da semente suicida. Em que pese o fato de a delegação brasileira na reunião da ONU incluir diversos representantes da Monsanto, o governo brasileiro também apoiou a moratória internacional.

Felizmente, a Campanha Latino-americana Terminar Terminator e a Campanha Brasil Livre de Transgênicos estão monitorando a situação em Brasília, trabalhando junto a membros do Congresso e fomentando campanha contra o movimento de acabar com a moratória sobre Terminator. Maria José Guazzelli, da Campanha Terminar Terminator, diz que o voto na Comissão de Meio Ambiente é apenas o primeiro passo. Depois terá que ser apreciado por outras comissões, com justificativa escrita, antes de ir a votação no plenário do Congresso.

Para informações futuras faça contato com a Campanha Latino-americana Terminar Terminator:
Julian Perez and Maria José Guazzelli terminarterminator@gmail.com

A ONU Mantém a Moratória sobre a Tecnologia das Sementes Terminator

Campanha Terminar Terminator
Comunicado de Imprensa
31 de março de 2006
www.etcgroup.org
www.banterminator.org


http://www.etcgroup.org/upload/publication/pdf_file/635


A ONU Mantém a Moratória sobre a
Tecnologia
das Sementes Terminator

Movimentos de Agricultores, de Povos Indígenas e de
Organizações da Sociedade Civil ao Redor do Mundo Exigem
Banimento

É oficial. Os governos na Convenção de Diversidade Biológica das Nações Unidas (CDB), de forma unânime, mantiveram a moratória internacional de facto sobre a tecnologia Terminator - plantas que são geneticamente engenheiradas para produzirem sementes estéreis na colheita. A 8ª reunião da CDB foi encerrada hoje, em Curitiba, Brasil.
"A CDB, acertadamente, rejeitou as tentativas do Canadá, Austrália e Nova Zelândia - apoiados pelo governo dos Estados Unidos e pela indústria da biotecnologia - para minar a moratória sobre as sementes suicidas," disse Maria José Guazzelli, do Centro Ecológico, uma organização agro-ecológica com sede no Brasil.
"Por decisão de consenso, todos os governos reafirmaram a moratória sobre a tecnologia de engenharia genética que ameaça as vidas e os meios de vida de 1,4 bilhões de pessoas, que dependem de sementes guardadas pelos agricultores", disse Pat Mooney, Diretor Executivo do Grupo ETC. Durante as últimas duas semanas, o clamor pelo banimento da tecnologia das sementes estéreis esteve no centro do palco da reunião das Nações Unidas no Brasil. Milhares de camponeses, incluindo os do movimento internacional da Via Campesina, protestaram diariamente, do lado de fora da reunião das Nações Unidas, para solicitar o banimento. As mulheres da Via Campesina conduziram, em 23 de março, um poderoso protesto de silêncio dentro da reunião.
"As sementes Terminator são sementes genocidas", disse Francisca Rodríguez, da Via Campesina, "Nós estamos contentes em ter dado mais um passo em nossa luta mas não iremos parar até que o Terminator seja banido da face da terra."
A moratória da CDB sobre o Terminator, adotada seis anos atrás, estava sob ataque de três governos - Austrália, Canadá e Nova Zelândia - que insistiam na "avaliação de risco caso a caso" da tecnologia. Uma ampla coalizão de agricultores, movimentos sociais, povos indígenas e organizações da sociedade civil pressionaram os governos presentes na reunião no Brasil, para rejeitar o texto controverso. Esse texto ameaçava abrir a porta para testes a campo do Terminator, em nível nacional, sem levar em conta os devastadores impactos sociais.
Em 23 de março, a Malásia, falando em nome do G77 (um grupo de cerca de 130 nações em desenvolvimento) e da China, disse que a referência à avaliação de risco caso a caso era "claramente inaceitável" porque potencialmente permitiria testes a campo. Hoje, a CDB reafirmou a moratória sobre o Terminator e até a reforçou ao deixar claro que qualquer pesquisa futura somente poderá ser realizada nos limites da moratória - o que significa sem testes a campo. Em relação à reunião das Nações Unidas, grupos da sociedade civil e movimentos sociais ao redor do globo intensificaram suas campanhas contra o Terminator - enviando uma vigorosa mensagem aos governos reunidos no Brasil. As ações incluíram:
∗ Na Índia, agricultores juntaram mais de meio milhão de assinaturas, solicitando ao Primeiro Ministro para permanecer firme na defesa do banimento nacional do Terminator e em manter a moratória internacional;
∗ Em 16 de março, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução solicitando aos governos europeus para manter a moratória da CDB e rejeitar o texto sobre o "caso a caso";
∗ Em 23 de março, seguindo consultas extensivas, líderes de comunidades indígenas no Peru solicitaram à companhia multinacional Syngenta para abandonar sua patente Terminator sobre batatas;
∗ Em Madri, em 23 de março, manifestantes anti Terminator plantaram variedades locais de sementes orgânicas de verduras em frente aos escritórios da Monsanto;
∗ Na última semana, grupos pressionaram os países que apóiam o Terminator e, além de campanhas domésticas de envio de cartas, ocorreram protestos nas embaixadas da Nova Zelândia, em Londres e Nova Deli, e na embaixada canadense em Berlim.
A moratória internacional sobre o Terminator foi mantida - mas a batalha ainda não acabou. O Terminator será comercializado a menos que os governos nacionais se esforcem para bani-lo - como fizeram o Brasil e a Índia," disse Lucy Sharratt da Campanha Internacional Terminar
Terminator.
Cinco mil camponeses protestaram, hoje, do lado de fora da conferência das Nações Unidas, com o objetivo dos delegados governamentais levarem, de volta para casa, a mensagem de proteger os Direitos dos Agricultores.

Para maiores informações:
Pat Mooney, Grupo ETC, etc@etcgroup.org
Silvia Ribeiro, Grupo ETC, silvia@etcgroup.org
Hope Shand, Grupo ETC, hope@etcgroup.org, +1 919 960-5767
Kathy Jo Wetter, Grupo ETC, kjo@etcgroup.org, +1 919 960-5223

O Retorno do Terminator

REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO - Nº 58 - MARÇO DE 2006 - MENSAL - ISSN 1519.6186

http://www.espacoacademico.com.br/058/58andrioli.htm

O RETORNO DO TERMINATOR
Por Antônio Inácio Andrioli

Durante os dias 13 a 17 de março de 2006 será realizada em Curitiba a Terceira Reunião das Partes (MOP 3) do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança e, de 20 a 31 do mesmo mês, a Oitava Conferência das Partes (COP 8) da Convenção de Diversidade Biológica da ONU. Uma das discussões polêmicas, certamente, envolverá a moratória sobre as tecnologias de restrição de uso genético (GURT – Genetic Use Restriction Tecnology), mundialmente conhecidas como “Terminator”. As articulações políticas favoráveis e contrárias foram intensificadas em 2005, quando os governos do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia se manifestaram abertamente pelo fim da moratória proposta em nível internacional desde 2000. Quais são os interesses que estão em jogo e quais seriam as conseqüências de uma liberação do uso desta tecnologia?

A introdução do gen Terminator nas espécies transgênicas, que, ao esterilizar as sementes, impede a sua reprodução por parte dos agricultores, é o ápice da dependência tecnológica desejada pelas multinacionais que dominam a produção de sementes e agrotóxicos. Produzida a partir da transferência de parte do DNA da Saponaria officinalis (uma espécie de planta silvestre dos EUA) a tecnologia esterilizante foi, originalmente, introduzida no algodão. As sementes germinam, normalmente, na primeira geração, mas, na fase do amadurecimento da planta, o gen “exterminador” se manifesta, produzindo uma toxina que esteriliza as sementes, impedindo a germinação da segunda geração, o que obriga os agricultores a comprar a semente para a safra seguinte. Patenteada desde 1998, a tecnologia ainda está em fase de experimentação e, diante da forte rejeição por ocasião da notícia de sua existência (tornada pública somente em função do processo de patenteamento), a maioria dos países adotaram a moratória, apoiada em convenções da ONU sobre a biodiversidade. Agora, como os transgênicos foram liberados em muitos países (uma liberação questionável também do ponto de vista jurídico e, muitas vezes, motivada por uma “situação de fato”, criada em função do contrabando e da contaminação), a ofensiva das multinacionais e seus aliados se ampliou em nível internacional, assim como os movimentos de resistência, coordenados por movimentos ambientalistas e de defesa dos direitos dos consumidores.

Uma das principais interessadas na liberação de uso do gen Terminator é a Monsanto, sob a alegação de possibilitar a tão propalada coexistência entre cultivos transgênicos e convencionais. O discurso supostamente baseado em princípios ecológicos e sustentáveis, no entanto, está em contradição com a história da empresa. Novamente, a Monsanto criou uma estratégia para aumentar seus dividendos com a venda de produtos questionáveis do ponto de vista ambiental e de saúde pública. Desta vez, trata-se do herbicida Roundup (glifosato), responsável por cerca de 2/3 do seu faturamento mundial e que, em combinação com a soja transgênica Roundup Ready, apresenta um mercado altamente promissor. Originariamente, a Monsanto enriqueceu fornecendo matérias primas ao exército dos Estados Unidos: nas guerras mundiais o fornecimento de ácido nítrico e tolueno permitiu um aumento exponencial dos lucros da empresa, investidos na compra de várias indústrias químicas pelo mundo afora; mais tarde, a Monsanto ficou famosa pelo fornecimento do agente laranja (um herbicida criado à base de 2,4-D e 2,4,5-T, usado, inicialmente, para destruir florestas na Guerra do Vietnã, cujas conseqüências à saúde a ao meio ambiente ainda podem ser detectadas); e, atualmente, a versão mais potente do glifosato, o Roundup Ultra, vem sendo usado massivamente na Colômbia, pretensamente para destruir plantações de coca (Erythroxylum coca). Segundo a versão difundida pela Monsanto e reproduzida mundialmente por cientistas por ela financiados, tanto o agente laranja como o glifosato foram, por muito tempo, considerados inofensivos ao meio ambiente e à saúde humana. Outra tentativa da Monsanto em confundir a opinião pública está relacionada à produção do hormônio de crescimento bovino, cuja patente é monopólio da multinacional e cujo efeito foi considerado inócuo a animais e seres humanos em estudos desenvolvidos pela própria empresa, mesmo após inúmeras pesquisas científicas terem provado o contrário. É esta empresa multinacional, com esta história, que depois de ter sido beneficiada com a contaminação de lavouras de soja transgênica contrabandeadas da Argentina (e que aumentaram a venda do seu principal herbicida) atualmente se apresenta preocupada com o meio ambiente e a saúde humana, para propor a liberação do gen Terminator.

A pergunta decisiva, entretanto, é a seguinte: as tecnologias de restrição de uso genético são realmente necessárias? A mesma pergunta precisa ser respondida com relação à soja transgênica: ela é, de fato, necessária? Os que defendem que sim, afirmam os seguintes argumentos: 1) o aumento da produtividade; 2) a solução de problemas técnicos na produção (doenças, pragas, inços, interferências climáticas etc.) e a conseqüente redução de custos de produção; 3) uma melhoria na qualidade dos alimentos para os consumidores; 4) e, não por último, o combate à fome no mundo. Diante desses argumentos, podemos continuar perguntando: nós precisamos de maior produtividade na agricultura ou os mercados mundiais de alimentos já estão confrontados com uma situação de superprodução? Há algum problema técnico que não possa ser resolvido com as demais tecnologias disponíveis? As variedades transgênicas disponíveis possuem alguma qualidade adicional superior para os consumidores? Há algum movimento dos consumidores reivindicando esses alimentos? Os transgênicos podem contribuir no combate à fome ou contribuem para uma maior concentração da terra e das riquezas e, portanto, para gerar mais pobreza e mais fome?

As pesquisas científicas independentes (que não são desenvolvidas por cientistas e institutos patrocinados pela Monsanto) realizadas nos países que cultivam a soja transgênica são unânimes em seus resultados: 1) as variedades transgênicas existentes no mercado não são mais produtivas em comparação às convencionais (ao contrário, produzem menos por hectare); 2) os problemas técnicos existentes podem ser resolvidos sem a transgenia e o uso desta última tem contribuído para aumentar problemas técnicos nos países que a adotam há mais tempo, com o prejuízo do aumento nos custos de produção e de conseqüências ambientais negativas a longo prazo; 3) não há nenhuma qualidade alimentar superior nos produtos transgênicos disponíveis e a maioria dos consumidores os rejeita; 4) a fome tende a aumentar e não diminuir com o uso da transgenia, especialmente por gerar um maior endividamento, empobrecimento e êxodo rural de pequenos agricultores (a maioria dos atingidos pela fome no mundo são pequenos agricultores e sem-terra). Esses resultados demonstram, claramente, que, com exceção das multinacionais e dos grandes proprietários rurais (inicialmente entusiasmados com a possibilidade de cultivar grandes áreas com monoculturas e com menor intensidade de trabalho), para a maioria da população o cultivo dos organismos transgênicos atualmente disponíveis é desvantajoso, especialmente a longo prazo, quando o monopólio sobre a alimentação tende a aumentar.

E é isso que está em jogo: a partir do controle sobre a semente (a gênese do alimento) multinacionais originalmente centradas na indústria química, como a Monsanto, a Syngenta e a Dupont (somente para citar as maiores empresas que possuem a patente da tecnologia Terminator) terão em seu poder o controle sobre o que e onde os alimentos serão produzidos, os insumos necessários e seus preços. A dependência tecnológica se aprofunda com a degradação ambiental e a conseqüente necessidade de mais insumos: um ciclo vicioso que demanda o uso de novas técnicas patenteadas pelas mesmas multinacionais que há décadas vêm enriquecendo com a difusão de tecnologias agrícolas, cuja eficácia é questionável do ponto de vista científico e cujos riscos de utilização superam os benefícios, presentes apenas nas promessas eufóricas de suas campanhas de marketing e constatáveis somente por ocasião do período de sua introdução.

Os argumentos apresentados em favor da liberação do uso do gen Terminator são, particularmente, curiosos: 1) a possibilidade de evitar a contaminação (que, no caso da soja já ocorreu e, com o milho e algodão está em curso, sem que houvesse uma preocupação das multinacionais em evitá-la) e permitir a coexistência entre cultivos transgênicos, convencionais e orgânicos; 2) a possibilidade de evitar o cruzamento entre espécies no meio ambiente e o surgimento de “super-inços” (a crescente resistência de inços ao glifosato vem ocorrendo em países, onde os transgênicos foram liberados há mais tempo, constituindo um problema real, aprofundado, entretanto, pela liberação irresponsável dos cultivos transgênicos sem o prévio Estudo de Impacto Ambiental, previsto nas legislações dos países, com base no princípio da precaução).

Além do interesse em controlar definitivamente a agricultura, aproveitando a “onda” da legalização em curso, o fundamental na liberação do gen Terminator no Brasil (apresentado como solução a problemas técnicos causados, no entanto, pela liberação das variedades transgênicas), continua sendo de ordem econômica: como a maioria dos agricultores no Brasil que cultivam a soja transgênica continua utilizando sementes contrabandeadas e reproduzidas por eles mesmos e as variedades transgênicas, apesar de insuficientes para o plantio em todo o território nacional, estão sobrando no mercado (porque a Monsanto demorou para definir os royalties sobre as sementes, as espécies existentes não estão adaptadas às diferenças climáticas de todo o país, o valor embutido na semente legal é maior do que o pagamento de royalties sobre a produção e a liberação do uso de sementes próprias com financiamento dos bancos, que reduziu as vendas de sementes certificadas), a Monsanto só tem a ganhar com o uso do gen Terminator e o fim da possibilidade de reprodução de sementes por parte dos próprios agricultores. Ou seja, se antes o contrabando e o uso ilegal da semente interessava com vistas à contaminação, agora ele passa a ser combatido tecnicamente, sob o argumento de “evitar a contaminação”.

Também para o caso da Argentina, onde os agricultores ainda não pagam royalties e continuam reproduzindo suas sementes (a disputa jurídica continua, com a tentativa da Monsanto em cobrar os royalties através das exportações de soja, em território europeu), a “nova tecnologia” pode ser uma solução para a Monsanto. É essa a necessidade real que está por detrás da discussão jurídica, atualmente vinculada a grandes cultivos comerciais como a soja, o milho e o algodão, assim como a tentativa de isentar produtores de sua responsabilidade em caso de contaminação. Se agora, quando a liberação irresponsável dos organismos transgênicos já ocorreu no meio ambiente, o risco de contaminação (anunciado publicamente por inúmeros cientistas críticos e independentes) surpreendentemente passa a ser aceito como problema pelos próprios defensores dos transgênicos, sua recente preocupação ambiental é, no mínimo, questionável, especialmente porque suas propostas continuam movidas por promessas, sem comprobabilidade real, portanto. E é isso que se percebe há bastante tempo no debate acerca dos transgênicos: promessas eufóricas de cientistas (sem evidência em experiências de campo) fundamentam argumentos que passam a ser criados como justificativa para legitimar a aprovação indiscriminada de qualquer cultivo transgênico e passam a ser anunciadas como necessidades, sem que se tenha conhecimento disponível para avaliar cada caso. O caso dos remédios a partir de organismos transgênicos (uma antiga promessa dos defensores da transgenia) continua servindo para confundir o debate, pois sua produção ocorre prioritariamente em laboratório, em ambiente fechado, com menor probabilidade de contaminação.

É com base na confusão entre promessa e realidade que parlamentares e governos de alguns países estão fundamentando a liberação das tecnologias de restrição de uso genético. No mesmo contexto está a idéia de que o uso dessas tecnologias venha a contribuir com a biossegurança no Brasil, o que não possui nenhuma evidência de caráter científico, mas serve para justificar a pressa na liberação indiscriminada, aproveitando a vigência da nova Lei de Biossegurança. A inconstitucionalidade desta lei recente deveria constituir o foco da atenção de parlamentares supostamente preocupados com sua incompatibilidade jurídica, agora que aparentam admitir o alerta já dado há muito tempo por cientistas independentes de que a coexistência entre organismos transgênicos e não transgênicos não é possível fora do laboratório, onde essas tecnologias de risco deveriam continuar antes de se ter uma avaliação objetiva e responsável acerca de seus efeitos à saúde e ao meio ambiente.